domingo, 3 de abril de 2011

Sobre diários...

Fixar o tempo: construir para si uma memória de papel, criar arquivos do vivido, acumular vestígios, conjurar o esquecimento, dar à vida a consistência e a continuidade que lhe faltam... (p. 277)

Sentir prazer em escrever: pois escrevemos também porque é agradável. É delicioso dar forma ao que se vive, progredir na escrita, criar um objeto no qual nos reconhecemos. (p. 277)

Philippe Lejeune. O pacto autobiográfico.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Atendendo a pedidos - do fundo do baú (2003)

A tesoura treme em minha mão. Não é incrível como hesitamos mesmo diante da decisão já tomada? Há uma grande distância entre saber o que se quer e os atos necessários para concretizar o querer. Será que isto ocorre apenas comigo? Serei o único que hesita, o único que sente as pernas tremerem quando se aproxima do que quer? Todas as pessoas que conheço me parecem sempre tão objetivas, tão determinadas, seguindo passo a passo o caminho que traçaram em busca de seus objetivos. Eu pareço bater em mil portas fechadas, ir de encontro a centenas de muros proibitivos.

Porém, faço um gesto. Pego em minhas mão um objeto singular que une duas facas, uma virada contra a outra, preparadas para, a uma leve pressão do polegar contra os dedos indicador e médio unidos, cortar o que estiver em seu meio. Assim, sigo, com as mãos meio trêmulas, pressentindo na margem do meu campo de percepção a inevitabilidade dos meus gestos. Junto meus cabelos com as duas mãos, como se fosse prendê-los em um rabo de cavalo. Seguro-os com uma mão, enquanto a outra segura a tesoura. Em frente ao espelho, sem determinar claramente o que estou fazendo, fecho as hastes cortantes, da esquerda para a direita. Sinto os tufos de cabelo soltarem-se na mão que permaneceu segurando-os. A própria ação parece fazer sua certeza, um instante que se concretiza no diâmetro de milhares (milhões?)  de fios de cabelo agrupados. Como medir o tempo entre o primeiro e o último fios a sentirem a ação da tesoura? Para mim eu atravessava a grossura da corda me prendendo à bagagem acumulada de gestos imperfeitos de meu passado. Vi os eus antigos que me puxavam para o fundo do poço agora rodopiarem como peças velhas de roupa caindo no abismo e me deixando solto. Agora estava feito: o corte acontecera.

Coloquei o tufo cortado na sacola plástica de supermercado que eu já separara previamente para este fim. Esfreguei uma mão na outra para me separar dos fios que, úmidos, insistiam em permanecer agarrados a mim. Os cabelos me parecem algo morto, uma parte cirurgicamente extraída de um estranho.

- Cortar o velho para deixar vir o novo.

Tão simples assim?


sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Intermezzo






Choro ao terminar de ler "Manual de Pintura e Caligrafia". Não é um choro convulso, é um choro discreto, adequado ao lugar onde estou, misto de cafeteria e padaria. Duas lágrimas, ou talvez uma, me escorrem de cada olho. Por que avaliar, investigar este impacto? Deixo que continue aí: choro ao terminar de ler "Manual de Pintura e Caligrafia". E, assim, digo tudo. Mas não evito, nem consigo evitá-lo, questionar, indagar, buscar os comos e os porquês. O livro termina com um casal, do qual o homem é o personagem principal e narrador, que recebe a notícia de que caiu o regime fascista de Portugal. Estes movimentos sociais me emocionam, assim como me emocionei, e chorei, na vitória de Dilma. Parece-me que se concretiza, e age, nestes momentos, um abstrato, como Nação, Pátria ou Povo, enfim: a Voz do Povo, a Vontade da Nação. (Mas a qual preço? Sob quais alianças? E o quanto entregamos de nossos ideais?)

Choro ao encontrar o político em um livro intimista. Mas é exatamente quando a dimensão política penetra na vida do personagem, que ele pode fechar um ciclo de crescimento no qual ingressou ao começar a escrever. E parece neste exato momento reconciliar-se com a pintura. O livro começa com um projeto de pintura e termina com um projeto de escrita.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cesare Pavese

"Os homens que têm uma vida interior tempestuosa e não procuram um desabafo na palavra, ou na escrita, são simplesmente homens que não têm uma vida interior tempestuosa." - Cesare Pavese

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Roland Barthes - II








Canhoto!





Aficcionado por canetas e colecionador delas!





Adorava escrever em fichas que ele mesmo fazia, dobrando em quatro uma folha de ofício e recortando-a.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Roland Barthes

O escritor dispõe em suma de três tipos principais de correção: substitutivas, diminutivas e aumentativas: pode trabalhar por permutação, censura ou expansão. (p. 165)

Essa mesma estrutura permite, ao contrário, dar livre curso, sem limite, às correções aumentativas; por um lado as partes do discurso podem ser indefinidamente multiplicadas (nem que fosse apenas pela digressão), e, por outro (é o que nos interessa principalmente aqui), a frase pode ser provida ao infinito de incisas e de expansão. (p. 166)

O Grau Zero da Escrita, seguido de Ensaios Críticos.